A igreja é uma comunidade de homens e mulheres que atenderam à oferta divina da salvação. Ela é uma comunidade de pessoas salvas; que vivem e pensam como pessoas salvas. Que sabem do que foram salvas, do porquê foram salvas, por quem foram salvas e para que foram salvas. Logo, a mensagem da igreja deve ter a centralidade na salvação e seu autor: Jesus Cristo, o salvador.
A igreja fornece ordem, organização e diretrizes missionárias para o povo de Deus. Dentro do humanamente possível, todos os que creem no Senhor envolvem-se na igreja visível e organizada de Jesus Cristo, e todas as pessoas na igreja devem ter um relacionamento correto com Jesus Cristo pela fé. O povo de Deus sobre a terra em qualquer momento determinado, mais todos os fiéis no céu e na terra formam a verdadeira igreja universal.
A ideia bíblica de igreja deve ser compreendida pelo uso da palavra ekklesia (a palavra grega traduzida por igreja) no Novo Testamento e significa basicamente um grupo reunido de pessoas. Na Bíblia, ekklesia possui uma variedade de significados, mas a maioria das referências aponta para um grupo local de crentes. O termo ocorre 114 vezes no Novo Testamento, das quais 109 referem-se à igreja local ou universal de Jesus Cristo. Em Atos 19.32, 41 há referência a uma multidão desorganizada; em Atos 19.39 o termo é traduzido por assembleia regular. Em 1Tessalonicenses 1.1 designa uma igreja específica; em 1Coríntios 4.17 aponta para uma igreja não especificada, enquanto em Gálatas 1.22 refere-se a um grupo de igrejas. Em Efésios 1.22-23 e Colossenses 1.18 vai além das igrejas locais, referindo-se à unidade espiritual da igreja. Podemos ver que o Novo Testamento emprega a palavra igreja em vários sentidos.
Essa mesma igreja também é apresentada por meio de figuras e imagens. Entre essas imagens incluem-se a da igreja como comunhão do Espírito (Filipenses 2.2); a família de Deus (Gálatas 6.10); a nova criação (Efésios 2.15); o corpo de Cristo (Efésios 1.22); o templo do Espírito Santo (Efésios 2.22); a coluna da verdade (1Timóteo 3.15) e a noiva de Cristo (Apocalipse 19.7).
A ideia da igreja como povo de Deus retrata sua universalidade, ou seja, crentes que atravessam todos os segmentos da sociedade estão em contato uns com os outros (Gálatas 3.28). A figura da nova criação retrata a vitória de Cristo sobre o mal como a nova humanidade em meio à antiga. Família de Deus implica a forma visível do povo de Deus que se relaciona mutuamente em comunidade e constitui a nova criação. Corpo de Cristo mostra a presença de Cristo no mundo, ainda que sua experiência e conhecimento sejam místicos. A igreja é mais que uma organização humana, é uma expressão visível e tangível do povo ligado à Cristo.
Essa igreja que nasceu em Jerusalém no dia de Pentecostes era marcada por comunhão íntima, pregação fervorosa, oração intensa e esforço evangelístico. Sendo que motivados pela perseguição externa, os discípulos de Jesus logo ultrapassaram os limites geográficos judaicos e levaram as boas novas do Senhor crucificado, ressurreto, assunto ao céu e que em breve haveria de voltar, a cada canto e recanto do Império Romano.
Esse mesmo Império foi importante para a história e a expansão da igreja. Embora houvesse muitas regiões e povos fora do domínio do Império Romano, a parte que este governava era a que estava alcançando os mais notáveis progressos. Por volta do ano 50, o Império abrangia a Europa ao sul dos rios Reno e Danúbio, a maior parte da Inglaterra, o Egito e toda a costa norte da África e grande parte da Ásia, do Mediterrâneo à Mesopotâmia, ou seja, todas essas terras foram alcançadas pelo cristianismo durante os três primeiros séculos da era cristã. Unidade política, bom sistema de estradas e movimentação livre entre os povos conquistados, favoreceram o movimento dos discípulos de Jesus em diversas direções dentro do Império. Além disso, a cultura greco-romana (mais intelectual) favoreceu a formulação de documentos, tratados e registros importantes acerca da reflexão teológica cristã em seus primórdios.
Por cerca de 300 anos, a igreja experimentou perseguição dentro do Império Romano, não de maneira organizada ou prolongada, mas em formas mais ou menos intensas, de acordo com o imperador e a província em questão. No entanto, essa situação começou a mudar quando Constantino (280-337) tornou-se imperador no ano 312 d.C. Por considerar que sua vitória contra o seu opositor ocorreu após a visão de uma cruz no céu, ao assumir o trono ele concedeu liberdade e tolerância a todas a religiões no Império. Esse evento levou ao gradual estreitamento das relações entre o Estado e a Igreja[ Igreja com “I” maiúsculo, nesse texto, representa a igreja institucionalizada, com todo o seu aparato burocrático. ]. Concedendo liberdade para conduzir seus assuntos sem perseguições, Constantino insistiu em ter voz ativa nos negócios da religião, em especial da religião cristã. O culto cristão começou a sentir a influência do protocolo imperial com a inclusão do incenso, uso de vestimenta mais ornamentada pelos oficiantes e procissões acompanhadas de coros.
É importante ressaltar que, com o apoio do poder estatal a Igreja conseguiu ao longo do tempo consolidar suas doutrinas fundamentais, definir a extensão do cânon bíblico e ter uma expansão ampla no mundo conhecido. Na Europa Medieval, com a queda de Roma (ano 410), a Igreja foi responsável por manter uma certa direção em um tempo caótico, cheio violência, pestes e ignorância. Com o tempo, os Papas passaram a coroar reis e convocar guerras “santas”, mas ao mesmo tempo também enviavam missionários para vários lugares. Não tanto para pregar o evangelho de Jesus mas para ampliar a influência e o território da Igreja.
O pacto do Estado com a Igreja, fez com que, desde o ano 313 até os nossos dias, vários pensadores (e posteriormente denominações diversas) desenvolvessem posturas teológicas diferentes, concernentes à maneira como a Igreja deveria se relacionar com a sociedade secular e o Estado.
Esse tema é importante para a história da Igreja, pois além de estar relacionado com a questão da autoridade da própria Igreja, também está relacionado com a sua missão no mundo. Ao longo da história, muitos questionaram os rumos que a Igreja estava tomando. Questionaram suas ações e suas motivações. Várias pessoas foram perseguidas e mortas por isso, mas é importante lembrar que o Senhor da Igreja sempre esteve e sempre estará no controle.
O destino já está estabelecido por Deus e nessa jornada rumo a esse destino, o mundo vive a realidade de seu tempo em cada momento histórico com seus acertos, seus erros com suas consequências também influenciando a Igreja. Deus, porém, usa eventos, circunstâncias e pessoas para trazer a sua Igreja para o propósito original outrora estabelecido.
A Reforma Protestante se enquadra dentro de um momento histórico onde a autoridade da Igreja e certas formas de governo estavam sendo questionadas. O anseio por liberdade de pensamento e outras inovações (como a invenção da imprensa e o movimento das grandes navegações) foram fundamentais naquele processo. Passados mais de 500 anos desses eventos, a Igreja hoje vive um momento diferente, onde a tecnologia da informação lança uma inovação à cada dia e o homem sonha em conquistar, literalmente, novos mundos. No entanto, há fome no mundo, há guerras, há suicídios, há violência, há doenças, etc., e a Igreja está ocupada tentando definir que candidato apoiar ou qual será a melhor ideologia para justificar sua ação no mundo onde vivem os seus membros. Afinal, esses são cidadãos com direito a voto!
A Igreja parece gostar da ideia equivocada de que ela é a salvação do mundo e que seus membros deverão ocupar posições importantes quando ela estabelecer o seu reino. Outra ideia equivocada mais atraente, mais real e em curso, é a de que os seus membros podem ser os próprios salvadores ocupando posições importantes na sociedade, levando a Igreja a estabelecer o seu reino (retro-alimentando a primeira ideia mencionada). Essas duas ideias não são novidades, pelo contrário, desde o século IV elas pairam sobre o imaginário eclesiástico.
Todavia, a realidade do século XXI é desafiadora e o próprio cristão dessa época é diferente dos cristãos de tempos passados, pois o ser humano do século XXI é muito diferente do ser humano de outrora. A mensagem entregue à Igreja precisa ser anunciada e re-anunciada constantemente, porque essa mensagem tem poder.
Na presente época, crentes fiéis, por causa do estresse e da depressão, tem dúvidas se são realmente cristãos verdadeiros. O cristão vive numa sociedade cujos valores familiares praticamente já não existem, e isso tem se refletido de modo negativo também em seu lar. Não são raros os casos de verdadeiros cristãos que enfrentam sérias dificuldades nessa área, sem mencionar questões conjugais, que geram angústia e sofrimento. No tocante ao trabalho, se alguém se concentrar nas crises econômicas, políticas e sociais, certamente encontrará mais um motivo para angústias e sofrimentos. A relação de trabalho se reveste cada vez mais de intensos choques entre cultura, motivações e novas tecnologias que, se por um lado facilitam a vida, por outro mostram que o ser humano é perfeitamente descartável em alguns setores. Isso sem mencionar as competições desleais que o cristão tem de enfrentar em muitas situações, inclusive com próprios irmãos na fé.
Nessa mesma perspectiva, se refletirmos criticamente na “filosofia” proposta para o presente século, ficará claro que vivemos em um momento em que a insensibilidade assola a sociedade, e o cristão não está imune a isso. Vemos poucos gestos de amor genuíno, poucos líderes cristãos compromissados com o evangelho de Cristo, pouco envolvimento de cristãos no trabalho do Senhor e o enfraquecimento do cristianismo verdadeiro, apesar do fortalecimento das instituições religiosas. Imerso nessa sociedade, o cristão acaba absorvendo tais princípios, que resultam em angústia emocional, expressa nas mais diversas formas do sofrimento humano. Dentre as incertezas e dúvidas que o assolam, destaca-se uma das temáticas mais importantes para a vida cristã: a salvação.
A mensagem da Salvação é a mensagem da Igreja! Toda a atividade da Igreja deve ser permeada pela certeza de que o povo de Deus é um povo salvo, um povo redimido, um povo que sabe onde estará quando Jesus estabelecer seu reino.
A realidade da salvação na vida de uma pessoa gera um sentimento de esperança, que a leva a ver a sua vida e o mundo ao seu redor com uma perspectiva de graça. Ela reconhece a sua condição pecadora mas celebra o favor imerecido de Deus sobre si e entende que Ele pode mudar realidades da mesma forma que mudou a sua. Ela compartilha com outros o poder da salvação e o nome do seu salvador. Uma pessoa que vive a salvação diariamente, vive uma vida de gratidão, de devoção, de busca pela santidade. Ela vive a vida como uma oportunidade de servir ao seu redentor. Ela cuida da sua saúde com a intensão de viver melhor para também servir melhor e por mais tempo, no entanto ela reconhece que o viver é Cristo e o morrer é lucro (Filipenses 1.21).
O líder que vive a realidade da salvação reconhece o seu lugar no mundo de Deus. Reconhece quem o chamou, o que deve fazer e a quem devem ser dados créditos dos seus feitos. Ele vive uma vida de contentamento, afinal ele sabe que a sua maior riqueza é ter o seu nome escrito no livro da vida. Esse líder reconhece o seu papel na história redentiva conduzida pelo seu salvador. Ele ensina, ele instrui, ele lidera, ele deixa um legado vivo como testamento do período que o seu salvador o permitiu viver na terra.
Ao longo da história Deus não mudou a ordem dada aos seus discípulos em Jerusalém: “E disse-lhes: Vão pelo mundo todo e preguem o evangelho a todas as pessoas. Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado. (Marcos 16.15-16). O resultado de crer no evangelho de Jesus é a salvação. Logo, pregar o evangelho da salvação em Jesus Cristo é a mensagem única da Igreja. Essa é a mensagem que as pessoas do século XXI precisam ouvir da Igreja de Jesus.
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Referências Bibliográficas:
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3. MATHER, George A; NICHOLS, Larry A. Dicionário de Religiões, Crenças e Ocultismo. 1. ed. São Paulo, SP: Vida, 2000.
4. HOEKEMA, Lopes, Edson. Fundamentos da Teologia da Salvação (Coleção Teologia Brasileira Livro 4). 1. ed. São Paulo: Mundo Cristão. 2009. (Edição do Kindle, 2019).
5. DOCKERY, David S.(editor geral). Manual Bíblico Vida Nova. 1. ed. São Paulo, SP: Edições Vida Nova, 2001.